Crítica: "Crash" de Charli XCX entrega pop perfection e encerra uma era

Charli XCX começa Crash assim: “Estou prestes a colidir com a água e eu vou te levar comigo” e… É bem isso que a cantora britânica faz no seu novo álbum. Ela expõe vários problemas pessoais de uma forma intensa e “bagunçada”, o que torna tudo ainda mais verdadeiro. Não se deixe levar pelo synthpop que guia o disco, porque letras pessimistas, extremamente intimistas e reveladoras se escondem nas batidas animadas.


A artista abriu mão da sonoridade “diferentona” do hyperpop no seu último lançamento sob o contrato da Atlantic Records e decidiu beber de fontes como Janet Jackson, Cindy Lauper e Black Eyed Peas para produzir um álbum mais “tradicional” que acena para tendências oitentistas e noventistas. E fica aqui um spoiler: nós adoramos o resultado dessa mudança.

Crash abre o álbum com perfeição. Mostrando a que veio e bastante influenciada pela nostalgia do retrô, a faixa de swingbeat tem um refrão pegajoso e ritmo envolvente. Dá para notar bem alguns traços da personalidade de Charli, como o outro com um instrumental potente de synths e os vocais distorcidos, herança da PC Music.


Se Crash avisa que Charli é autodestrutiva, New Shapes vem logo em seguida para dar um ar mais intimista às suas confissões de defeitos por afastar seus entes queridos. Um dos singles promocionais do álbum, a faixa conta com participação de Caroline Polachek e Christine and the Queens, colaboradoras de longa data de Charli. Cada cantora tem espaço para se expressar e mostrar sua própria personalidade nos vocais, e o refrão meio espaçado dá um toque a mais a New Shapes.

Good Ones, como o primeiro single anunciado de Crash, dá uma boa dimensão da nova era pop “quadradão” da Charli. Dá para ainda ver aspectos típicos da cantora — como o clipe extremamente ousado com Bíblias queimadas — unidos ao ritmo mais dançante e palatável, mostrando o que Charli faz de melhor.

Constant Repeat chama atenção pela letra. A faixa é sobre perder alguém depois de um amor intenso, e questionar se o cara não sente sua falta (“você notou que eu poderia ter mudado a sua vida?”). O interessante é que a música fecha com a repetição do verso “got me on repeat”, que pode se referir tanto à pergunta de Charli se o homem pensa muito nela ou ela falava de si própria por tê-lo constantemente na cabeça.


Beg For You tem sample de Cry For You, do September, e de Don’t Cry, do Milk Inc, para incorporar uma faixa bem UK garage que remonta bastante à origem de Charli e Rina Sawayama na Inglaterra. A colaboração era muito aguardada, já que ambas são colegas há bastante tempo, e o resultado valeu a pena a espera com um refrão simples, mas eficiente que fica fácil fácil na sua cabeça.

Move Me traz um instrumental mais minimalista para Charli XCX criar a ambientação de suas confissões pessoais, como admitir que tem “um hábito de destruição” e afastar as pessoas sem querer. O refrão traz vocais com grande destaque devido à batida contida, e expressa um agradecimento por seu namorado não deixá-la mesmo em seus piores momentos.


Baby é a faixa mais sexual do Crash e, segundo a própria Charli, é a música mais sensual da sua carreira — até agora. O dance-pop, inspirado no disco Control (1986) de Janet Jackson, traz ainda umas pitadas de swing, funk e disco num refrão extremamente repetitivo e esperto — ou seja, é exatamente o que eu espero de uma música da Charli. Apesar do ar mais ~lascivo~ da música, ela ainda transmite o medo da cantora de prejudicar as pessoas (e, em especial, seus parceiros), assim como repete o último refrão: “I'ma fuck you up” (vou te foder; no sentido negativo e não sexual).

Lightning traz, na minha opinião, a letra e batida mais interessantes do disco. Claro que o som de trovão está incluso na faixa num gesto bastante previsível, mas o instrumental é a atração da música principalmente por seu crescimento ao longo dos versos, até chegar com tudo no refrão. O techno-pop de Lightning traz ainda um pouco de flamenco com uma guitarra gostosinha para completar.


Assim que eu escutei Every Rule, ela entrou no meu grupo particular de Músicas Da Charli Muito Emotivas Que Me Fazem Chorar (os outros integrantes eram Thoughts e White Mercedes, óbvio). A baladinha techno é uma das faixas mais lentas do Crash e traz um respiro para o pop baladão presente na maior parte do disco.

Depois da vibe romântica de Every Rule, Yuck chega para nos divertir com a Charli cantando sobre querer só pegar um cara… Só que o problema é que ele é muito emocionado. O final de Crash vira meio uma bagunça (ainda muito boa, diga-se de passagem), poque depois dessa faixa mais descontraída vem Used To Know Me, com sample de Show Me Love de Robin S. para encarnar mais um europop, até chegar em Twice, uma música bastante melancólica sobre como Charli se sentiria caso o mundo acabasse agora.


A ordem das músicas poderia ter sido melhor, principalmente nessa reta final. Eu respeitaria Charli se ela quisesse fechar o Crash com o ânimo lá em cima, mas como ela optou por ser algo mais reflexivo e intimista, não vejo motivo para Every Rule não ter ficado mais para o fim do disco. Yuck terminou ficando muito desconexo nessa ordem, sendo que é uma faixa muito divertida e que merece maior destaque. Ao mesmo tempo, a Charli não é exatamente conhecida por ótimas ordenações de faixas em disco — sério, é só ouvir o Charli (2019) que você vai me entender.

No mais, fiquei muito satisfeita com a tentativa da Charli de abraçar o pop mais tradicional, sendo que ela é (por algumas razões) muito encarada como uma artista fora do mainstream. A essência de Charli ainda está aí, provando que ela é muito mais do que a cantora do autotune estilo Alvin e os Esquilos, e dá para ver bem pelo conteúdo das letras que ela criou o Crash como tela para pintar várias inquietações suas.


Muita gente pode ter se surpreendido com como o dance pop da Charli é bom, mas quem é fã sabe que o potencial sempre esteve aí — não só por ela ter começado assim, mais “corretinha”, como pelo fato que seus outros discos, mesmo mais hyperpop, ainda trazem uma faixa ou duas mais “recatadas” que fariam qualquer fã de pop mais conservador dançar.


Charli fazer um álbum comercial não a torna menos Charli nem menos crítica; com o fim do seu contrato com a Atlantic Records, eu estou muito ansiosa pelos próximos passos da sua carreira. Qual sonoridade será que ela vai trazer?



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