Crítica: "BLACKPINK - Light Up The Sky" é um documentário para blinks

Por Beatriz Cardoso e Jessica Riquena


Se você é fã de BLACKPINK, o mês de outubro está mais animado do que os últimos um ano e meio. Isso porque depois de mais de um ano no porão da YG Entertainment, neste mês foram lançados o primeiro álbum do grupo, o The Album e, na última quarta-feira (14), estreou o documentário BLACKPINK: Light Up The Sky na Netflix.

Como blinks antenadas que somos, estávamos aguardando ansiosamente a chegada desses dois conteúdos super esperados por todo o fandom. Agora imaginem a nossa decepção ao notar que a fixação da YG por mini conteúdos também seria mantida no documentário. Com duração de 1h19min, Light Up The Sky surpreende por ser super bem produzido e filmado, mas peca no conteúdo apresentado.


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O que vale a pena destacar?


Com clipes bem feitos que acumulam alguns bilhões de visualizações no YouTube, era de se esperar que uma das preocupações fosse com a qualidade e com a construção do documentário e, realmente, nesse aspecto não fomos decepcionadas.


Com as cenas bem amarradas, desde o começo até o fim, o longa te prende e faz ter vontade de conhecer a “história de superação” das meninas que passaram anos como trainees para, enfim, debutar em 2016 e atingir o estrelato de forma surpreendente. Por isso, faz sentido começar com um dos maiores sucessos da carreira do BLACKPINK, DDU DU DDU DU, e terminar com uma dica de qual será o próximo single, Pretty Savage.


O documentário segue uma linearidade quase perfeita; até a apresentação das meninas são feitas de acordo com o tempo que passaram como trainees — Jennie, Lisa, Jisoo e Rosé, respectivamente — e tudo isso é para mostrar a evolução delas enquanto artistas. Comparar cenas dos treinos com shows em grandes estádios e no Coachella mostra a grandiosidade desse gênero musical e o alto nível de reconhecimento que ele pode atingir.

Tempo de treino de cada uma na YG | Foto: Reprodução

Essa montagem também é uma das responsáveis pela beleza visual do documentário. Ele é muito bonito de se ver. As cenas são bem pensadas, os ângulos são bem estruturados e as imagens das apresentações são de tirar o fôlego. Tirando uma ou duas cenas mais “reais”, tudo no Light Up The Sky parece ter sido milimetricamente feito para se encaixar na identidade visual do grupo e contar a história do BLACKPINK de forma completamente ensaiada. O que não tira a beleza dele, mas com certeza não era o que estávamos esperando.


Como uma recém blink — eu, Jéssica — senti que precisava de mais para gerar uma conexão com o grupo e com a história dele. Desde o primeiro segundo de lançamento do documentário, vi várias postagens do Twitter de pessoas dizendo que tinham ficado emocionadas e impactadas com a história de formação, mas até para mim pareceu “simples” demais.


Salvo alguns pontos que foi importante descobrir, como a relação delas com o Teddy ser mais próxima do que eu esperava e, principalmente, descobrir que elas parecem dar mais opiniões no processo de produção do que a YG faz parecer. A relação do grupo em si com o termo “k-pop” e a vontade de expandir a fronteira da Coreia do Sul — o que ficou bem evidente na divisão inglês/coreano do The Album. Ou até mesmo algumas imagens bem intimistas e até vulneráveis delas no show, que realmente trouxeram um impacto e carga emocional para quem estava assistindo, o documentário funciona mais como um guia rápido do que é o BLACKPINK.

A cena é linda, mas todos já tínhamos a visto | Foto: Reprodução

O óbvio precisa mesmo ser dito?


O documentário serviu em parte para revelar informações pouco explicadas, e em parte para confirmar algumas suspeitas de anos. Não foi surpreendente ver a função de Lisa de animar as garotas, por exemplo — ainda mais considerando seu papel de “maknae empolgada” no grupo. Contudo, ao mesmo tempo, foi muito interessante ver a personalidade de Jisoo como alguém forte, tipo a unnie responsável, e mais detalhes sobre a trajetória de Jennie na Nova Zelândia até a Coreia do Sul.


Light Up The Sky tem uma aura muito controlada e artificial. Por mais que as falas do BLACKPINK aparentem autenticidade, as cenas são desconfortavelmente encenadas. A parte em que elas assistem a clipes uma das outras é muito forçada, por mais que seja compreensível a ideia de incentivar um diálogo baseado nos temas exibidos, como a participação no Coachella.

Olha só que espontaneidade (só que não) | Foto: Reprodução

Vale apontar que a direção do documentário sequer parece se “desculpar” pela artificialidade: há cortes de câmera elaborados para mostrar Lisa na rua na sua introdução, cenas tipo comercial de margarina para ilustrar a amizade entre Jisoo e Jennie, e uma conversa nem um pouco espontânea entre Lisa e Rosé. Podemos deixar isso passar se encararmos como uma característica de estilo da produção do longa, que busca ser majestoso e perfeccionista nos mínimos detalhes — assim como é o trabalho do BLACKPINK.


A construção de narrativa também termina sendo bastante evidente, justamente por esse aspecto encenado do documentário. Por exemplo, a introdução a Jennie é feita num estúdio de pilates. Ela comenta sobre ter o pique de uma velhinha, sobre ficar sem ar com facilidade. Isso pode parecer irrelevante para alguns, mas que tal lembrarmos da polêmica da “lazy Jennie”? Aquela cena foi sua resposta às provocações, algo como “eu tenho uma história, não sou alguém simplesmente quando estou no palco”. Claro que é escolha do telespectador acreditar ou não nessa narrativa.


O documentário é para quem?

BLACKPINK está tão produzidíssimo para o doc quanto para um MV | Foto: Reprodução

Eu gosto de assistir a documentários de celebridades de uma forma meio voyeur, como se estivesse acompanhando o cotidiano do protagonista sem seu conhecimento. Não senti isso com Light Up The Sky. É tudo muito encenado e guiado pelas entrevistas, com poucas cenas que parecem ser “candid”. É fácil ensaiar respostas e se preparar para perguntas; é difícil manter determinada persona no dia a dia, mesmo sendo seguida por uma câmera 24/7.


Entendo que é pedir demais que o documentário tivesse sido feito em outro formato, mais “infiltrado” e investigativo por assim dizer, mas julgo que o resultado final foi menos sobre conhecer o “verdadeiro” BLACKPINK, e mais sobre conhecer o BLACKPINK. Ponto final, é isso. O filme divulga alguns aspectos já esperados pelas fãs (como o processo de produção de música, rotina de trainee), mas não revela nada realmente surpreendente.


Dou o benefício da dúvida a Light Up The Sky porque, na verdade, ele também é uma peça publicitária. Afinal, o documentário é indicado como parte das promoções do BLACKPINK pós-lançamento do The Album. Seu papel é divulgar o trabalho das meninas para mais pessoas e, muito provavelmente, ele deve atingir não-fãs que quiçá conhecem o grupo de nome. Podemos ver isso com as cenas estratégicas sobre a relação de Rosé com a música, por exemplo. Será que elas estão ali apenas para a introdução da personagem? Ou já é um prenúncio do seu trabalho solo, esperado para o fim do ano?

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