Crítica: Após apresentar noite de climão, Letrux se inunda no choro

A carioca Letícia Novaes apresenta “Letrux aos Prantos, álbum que sucede o exitoso primeiro disco da cantora, o “Letrux em Noite de Climão” (2017). O novo trabalho, que está disponível desde 13 de março, chega às plataformas após quase três anos de expectativas dos fãs e não decepciona. Pelo contrário, Letícia dá um passo importante ao tentar reinventar sua música.


Não espere a mesma Letrux do disco anterior ainda que se possa encontrar fragmentos da primeira aventura solo da artista em 2017. Ela sai do flerte da balada para se encontrar com a tristeza em um CD melancólico. É um disco que te permite tanto dançar na pista quanto chorar na cama (ou os dois juntos, quem sabe?).


Foto: Divulgação

A cantora contou que o disco começou a ganhar vida durante uma turbulência em um voo. “Não dá pra ter bebê / Não dá pra ter um carro / Não dá pra ser no débito / Não dá pra ser”, trecho da faixa-título “Eu Estou em Prantos” nasceu nesse momento.


Já a música de abertura, “Dejà-vu Frenesi”, anuncia o que podemos esperar das 13 faixas, um eu lírico saudosamente triste: Se organizar direito, todo mundo chora / Se organizar direito, todo mundo cansa / Mas nem todo mundo transa / Nem todo mundo goza”.


As composições da artista seguem muito boas e o disco consolida a batida que mescla tecnopop com MPB. A diferença é a qualidade da produção. Os mais de dois anos de hiato serviram para amadurecimento da proposta musical. “Letrux aos Prantos” é um trabalho detalhado que deve ser saboreado e digerido aos poucos, de maneira lenta.



Capa do álbum "Letrux aos Prantos"

Os destaques são as já mencionadas faixas “Dejà-vu Frenesi” e Estou aos Pranto”. Mas, também é necessário falar da ótima parceria com a cantora Lovefoxxx na música “Fora de Foda”, que tem uma pegada funk super acertada. Já a parceria com a brilhante Liniker é interessante pelo vocal das duas cantoras, porém a letra de “Sente o Drama” não tem muito fôlego e pode soar como repetitiva, assim como “Abalos Sísmicos”.


O alívio divertido do álbum acontece na quinta e sexta faixa. “Contando Até Que” é cômica nos versos “Eu vim pra botar fogo no teu bairro / eu vim pra botar fogo no teu quarto / No teu bairro, no teu quarto / no teu porto, no teu carro, com cigarro”. Já “Vai Brotar” é dançante e reflexiva: “Eu deixei cê brilhar com a sua palhaçada / Acreditando em grana, sexo e classe”


Letrux visita diversos estilos, indo do POP na latina “El día que no me quieras”, e na divertida “Salve Poseidon” até o flerte com o samba na triste “Cuidado, Paixão” que, por sinal, é a mais diferente do projeto, sendo muito interessante. No fim, “Esse filme que passou foi bom” mostra a rica musicalidade da artista tijucana e “Cry Something Amwward” sua irreverência.



Foto: Divulgação

O disco foi gravado a partir de edital da Natura Musical, com a participação dos músicos Lourenço Vasconcellos (bateria), Martha V (teclados) e Thiago Rebello (baixo), além de Arthur Braganti (teclados) e Natália Carrera (guitarras), que assinam a direção musical dessa mistura entre sintetizadores, guitarras e outros sons.


Letrux canta o desamor, as dores sociais e os desafios políticos nas 13 faixas autorais. Ela enfatiza o choro em meio ao caos, com pequenos espasmos da outra ponta: a felicidade. Afinal, a vida não existe sem essa dualidade mesmo percorrendo mais tempo o lado da tristeza. Quem não chora com as desilusões amorosas? Quem não chora com as notícias diárias do jornal? Quem não chora com as medidas equivocadas na política nacional atual?


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