Crítica: "Anitta - Made in Honório" repete os erros de "Vai Anitta"

Anitta: Made in Honório estreou na última semana na Netflix e deu o que falar logo no dia seguinte, com a confissão da Anitta de que sofrera assédio sexual aos 14 anos. Apesar desse ponto não ser a questão central do programa, é importante mencioná-lo para dar uma dimensão da proposta da série documental: trazer uma faceta mais íntima e confidencial da cantora.


Essa declaração, que acontece de cara no primeiro episódio, mostra que Anitta está disposta a mostrar tudo de si em Made in Honório — e a artista cumpre essa premissa, com clipes dando esporro na sua equipe, conversas com amigos sobre sexo e flagrantes da Anitta com peguetes (cujos rostos são devidamente censurados). Mas será que o conjunto da obra é bom? Confira na nossa resenha o que achamos de Anitta: Made in Honório.

Foto: Reprodução

Made in Honório não é a primeira série documental da artista na Netflix. A bem conhecida Vai Anitta (2018) trouxe os bastidores do projeto CheckMate da cantora, que buscava inserção no mercado internacional com o lançamento de uma série de singles com feats famosos — foi daí que saiu alguns dos hits mais lembrados de Anitta até hoje, como Vai Malandra. Já Made in Honório fala sobre… Bem, fala sobre a Anitta. A gente até acompanha a estrela em alguns trabalhos (como o show no Rock in Rio e o lançamento de Combatchy), mas o foco acaba sendo a a vida particular dela, como sua família, sua ascensão à fama e vida amorosa.


Tudo isso poderia ser bem interessante, se não fosse por um pequeno detalhe: quem assistiu a Vai Anitta já sabe disso tudo porque todos esses pontos também foram contextualizados na outra série documental. É claro que Made in Honório não se vende como uma continuação ou uma espécie de segunda temporada de Vai Anitta, mas essas redundâncias no storyline do programa são igual trocar uma nota de R$ 10 por duas de R$ 5: é a mesma coisa, mas não é beeem a mesma coisa.


Quando comparamos a série com Vai Anitta, o ineditismo de Made in Honório consiste nas mudanças na vida de Anitta. Se em 2017 ela estava muito feliz casada e almejando uma carreira internacional, em 2019 ela está solteira em busca do amor, descobriu que tem um irmão e trabalha para se manter no ponto alto a que chegou em sua carreira. E é aí que entra outra questão importante de abordar: todas nós sabemos disso, certo? Mesmo quem não é fã de Anitta sabe alguns desses fatos aleatórios, como que o casamento dela durou papo de um ano, e que ela surgiu do nada com um irmão novo por parte de pai.

O celular de Anitta aparece na série tanto quanto ela | Foto: Reprodução

E como sabemos disso? Porque a Anitta expõe tudo nas redes sociais. Tanto que Made in Honório até mesmo intercala algumas cenas com Stories publicados por ela no Instagram. Se isso é bom ou ruim, eu deixo esse julgamento a critério de vocês, mas o ponto é: então o que essa série documental traz de novo?


Não é não.


[AVISO DE GATILHO: menção a estupro, assédio sexual e depressão. Se não se sente confortável com esses temas, prossiga para o próximo tópico.]


Poderíamos passar o dia inteiro questionando até que ponto documentários são representações reais (afinal, o que é real?), mas é um consenso que a confissão de Anitta sobre seu caso de estupro foi o auge da honestidade de Made in Honório. O vídeo foi gravado por conta própria pela cantora de forma bem intimista e não tem cortes, de forma que você encara Anitta chorando enquanto revive seu trauma.


No clipe, ela explica que foi estuprada por um ficante aos 14 anos. O homem era intimidador e ela não tinha coragem de desobedecê-lo. Anitta chegou a deixar claro que não tinha mais interesse em transar com ele durante o ato, mas suas reclamações foram ignoradas. É importante eu trazer esses detalhes dolorosos porque o caso de Anitta não foi um homem suspeito na rua. Não foi um (suposto) flerte agressivo numa balada. Foi um conhecido com quem ela ficava, alguém próximo.

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É muito importante que Anitta compartilhe sua história, considerando sua visibilidade e posição de modelo para muitas meninas, e respeito sua decisão de expor tão publicamente um trauma ao qual é garantido críticas e dúvidas de pelo menos meia dúzia de homens idiotas. Porém, logo depois dessa cena, Made in Honório parte para mostrar Anitta pegando um jatinho para cantar na Libertadores. A mudança brusca deixa o público com uma impressão de “nossa, o que rolou?”.


Anitta não entra em detalhes sobre o processo de recuperação do caso de assédio, sobre como (ou se) superou esse trauma que marca a vida de tantas vítimas. É óbvio que eu não demando essas questões da Anitta vulnerável que pegou uma câmera para fazer um vídeo caseiro no meio da madrugada sobre o estupro que sofreu. Mas eu honestamente acho que está dentro do meu direito como telespectadora questionar toda a equipe de produção por trás de Made in Honório: vocês não acham que poderiam ter tratado essa questão com mais responsabilidade?


E o pior de tudo é que isso nem me surpreende, porque algo semelhante aconteceu em Vai Anitta. Na série anterior, a cantora comentou sobre superar um quadro depressivo e, novamente, não foram mencionados alguns aspectos importantes da doença, como tratamento ou consultas médicas. Por acaso a Anitta faz (ou fez) terapia para cuidar de todos esses traumas? Não sabemos, porque o documentário não responde essas perguntas básicas (e vitais).


A autenticidade está nos detalhes

Meu sonho ser uma mosquinha e espiar uma reunião da Anitta só pelos esporros | Foto: Reprodução

A “correria” de Made in Honório com alguns assuntos sérios acontece, em parte, porque a série é um bando de tema misturado no liquidificador. Basta uma lida rápida nos episódios na Netflix para ver que o documentário se desafia a falar da intimidade da Anitta, do seu lado empresário, do funk, da sua família, dos bastidores de seus projetos e de suas raízes em Honório Gurgel — isso tudo em apenas seis episódios de 30 minutos.


A série segue um formato com gravações espontâneas de Anitta intercaladas com entrevistas com a família e empregados da cantora. Eventuais clipes do Furacão 2000 e da infância de Anitta despontam no documentário uma vez ou outra. Eu achei as entrevistas um porre. É a Anitta falando da Anitta, é o Painitto falando da Anitta, é o balé falando da Anitta.


Sim, a série é da Anitta, mas de novo: eles não dizem nada que ninguém já soubesse sobre ela — e o puxa-saquismo correu solto nessa parte, sem tempo irmão. O ponto alto desse segmento de entrevista foi o povo-fala na rua com desconhecidos, especialmente porque a edição fez questão de colocar um clipe de uma menina comentando que acredita que a Anitta não representa o feminismo. Essa cena me despertou do meu tédio porque foi maneiro ver Made in Honório não bajular a Anitta pelo menos uma vez.

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Mais do que ver mil e uma entrevistas com funcionários da Anitta, foi interessante assistir às cenas de reuniões, em que a cantora dá esporro em qualquer um que fizer o trabalho errado. Anitta passa em câmera por umas situações surreais de frustrantes por conta de incompetência alheia e, olha, você pode ser do time civilizado que perdoa equívocos no ambiente de trabalho, mas eu não sou assim então bato palmas para a Anitta por apontar o dedo na cara e explicar o que cada um errou sem nenhum pudor.


Sempre muito foi falado sobre as habilidades empresariais e estratégicas de Anitta, mas apenas com as séries da Netflix que pude finalmente vê-las em ação. Uma coisa é assistir a palestras ensaiadas da cantora sobre administração, outra é presenciá-la efetivamente controlando seu trabalho artístico até os mínimos detalhes, desde a iluminação do palco até a entrada do balé. E é aí que Made in Honório acerta: deixando Anitta ser Anitta e gravando-a de longe, em vez de meter uma câmera na cara dela e pedir que recitasse seus sentimentos e pensamentos tintim por tintim para o espectador.


A presença de Anitta

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A sinopse de Vai Anitta dá a entender que é centrado na entrada da cantora no mercado internacional, só que o enredo perde o foco à medida que se preocupa em mostrar as interações de Anitta com família e amigos. Made in Honório foi mais honesto ao deixar claro que iria abordar trocentas questões sobre ela e dane-se o pobre espectador perdido em mil temáticas diferentes. Mas a série terminou não inspirando autenticidade em meio a entrevistas bajuladoras até demais, de maneira que o brilho se concentrou nos momentos de trabalho de Anitta.


Por mim, o próximo contrato de Anitta com a Netflix seria um longa documental acompanhando apenas os bastidores de algum projeto seu só para vê-la gravar outro áudio de cinco minutos no WhatsApp criticando a sua equipe. Sério. Brincadeiras à parte, o aspecto de Made in Honório que mais me instigou foi de fato a produção artística de Anitta, e acho que esse lado deveria ser mais explorado.


É evidente que documentários buscam criar uma imagem específica sobre o sujeito central, e Anitta propôs se aproximar do público com um lado mais vulnerável e íntimo nesta série. Ela própria comenta, em um momento de Made in Honório, que seu trabalho não é respeitado por ser mulher e sensual, e fica aqui um questionamento: por que não rebater essas críticas mostrando que você é o crânio sagaz por trás de tudo o que faz? Lança um filme sobre o processo de produção do Kisses (2019), gata. Eu nunca te pedi nada.

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