Crítica: "A caminho da Lua" uma animação cheia de emoção, cores e música

Dentre os filmes indicados ao Oscar 2020 de "Melhor Animação", um deles promove um forte enredo emotivo. "A caminho da Lua" é uma animação que já nos primeiros minutos, lida com um assunto delicado e marcante: a perda de um ente querido. Indo na onda de muitos filmes da Disney, "A caminho da Lua" se apoia no sentimentalismo como enredo principal e se une as cores vibrantes e as músicas que os personagens cantam ao longo do filme.


A animação conta a historia de Fei Fei, uma menina chinesa de 12 anos que vive feliz ao lado de seus pais e que durante toda a infância ouviu a lenda da deusa da lua contada por eles. Após perder sua mãe, a menina enfrenta dificuldades em lidar com o luto e ainda mais em aceitar o novo romance de seu pai. Ainda impressionada com as lendas sobre a deusa da lua, Chang'e, e chateada por descobrir que seu pai deixou de acredita na história, ela decide construir um foguete e partir rumo a Lua. Fei Fei acredita que se viajar até a Lua e comprovar a existência da deusa, seu pai irá desistir do novo casamento. A história pode parecer fraca mas a forma que tudo acontece, de fato prende o telespectador, causando uma expectativa de descobrir o que estará por vir nos próximos minutos de filme. "A Caminho da Lua" abre espaço para debater questões como luto, amor e significado de família, tudo isso munido de belíssimas músicas que arrancam lágrimas até dos mais durões.



A narrativa do filme circunda por mulheres, são elas que fazem o filme acontecer. A própria Fei Fei é uma menina extremamente inteligente, independente e criativa, e que não depende de nenhum personagem masculino para alcançar seu objetivo. Não que eles não existam no filme, mas tanto o Ba Ba, pai da menina, e Chin, o novo irmão, mesmo sendo importantes para a história, ambos ganharam papéis secundários no enredo.


O filme de fato é uma animação voltada para o público infantil. Mas quem disse que não é um bom filme para os adultos? Enquanto para as crianças o que chama atenção são as cores vibrantes, os personagens fofinhos e as músicas que ajudam a reforçar os diálogos, para os adultos o que impressiona é a forma abordada para essa fase tão ingênua e importante que um dia já passaram. Parece a receita perfeita para uma animação de sucesso, não é? Acontece que a direção do filme é de uma dupla veterana da Disney: Glen Keane e John Kahrs. Enquanto Keane trabalhou em diversas produções de animações da Disney desde a década de 1970, Kahrs esteve no mesmo de Vida de Inseto (de John Lasseter e Andrew Stanton, 1998) a Frozen: Uma Aventura Congelante (de Chris Buck e Jennifer Lee, 2013), ambos sucesso até os dias de hoje.


Além do enredo, o que também chama atenção na animação é a qualidade visual. Talvez animações de lendas já sejam comuns, ou até mesmo animações com elementos de ficcção científica, ou ainda, animações cheias de elementos coloridos repletos de fofura. Mas o que acontece em "A caminho da Lua" é a junção de tudo isso. O filme mistura as lendas chinesas, ficção científica e um mundo colorido, criando um visual distinto e impressionante. Seja no universo de Fei Fei ou no de Chang'e, a atenção a cada detalhe do cenário e nos personagens é perceptível.


As cores vibrantes de Lunária. | Imagem: Reprodução

Mesmo atraindo os adultos, o filme se compromete a levar para as crianças noções importantes para o crescimento. Percebemos isso na mudança que Fei Fei adquire do começo ao final do filme e tudo isso, a partir do encontro que tem com Chang'e. Em primeiro momento, percebemos a quebra de expectativa da menina diante da Deusa da Lua, que se mostra ter uma personalidade bem diferente da esperada por ela. Mas o que Fei Fei só percebe depois é que a deusa também está enfrentando problemas com o luto. Isso resulta em uma troca sensível entre duas pessoas que ainda não sabem como lidar com a perda de um ente querido, sendo que uma que convive com essa dor há milênios e a outra há quatro anos.


É nesse momento que vemos o maior ensinamento do filme. As duas superam a dor juntas, quando deixam de lado o medo e conversam abertamente sobre o assunto e tudo isso em uma canção que se torna o clímax da animação. O desfecho do filme reforça a ideia de que é possível seguir com a vida amando aqueles que já se foram e abrindo o coração para que outros possam chegar.


Um laço forte nasce entre Fei Fei e Chang'e através do luto. | Imagem: Reprodução

O veredito


Possa até ser que "A caminho da Lua" não chegue ao Oscar como o grande favorito, mas ainda assim, cumpre com o esperado de uma boa animação. Além das questões já esperadas como roteiro e animação, o filme ainda trabalha questões importantes como a representatividade feminina e da indústria americana-chinesa. Com isso, quem se torna a maior protagonista do filme é a cultura chinesa, com toda sua mitologia e riqueza.


"A caminho da Lua" é uma experiência reconfortante e uma libertação sentimental. Otimista, divertido e fofo, o filme é uma boa pedida para aliviar um pouco a tensão e dor que o mundo vive em um momento de pandemia.




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