Caso Naya Rivera, a espetacularização da tragédia e os limites do jornalismo

O Código de Ética dos jornalistas brasileiros afirma que "o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental". Mas, a verdade é que o interesse público atualmente sucumbe aos interesses do capital: o que dá mais retorno financeiro e lucro deve prevalecer.


Não me entenda mal, é uma afirmação paradoxal, certo? Porque as notícias mais rentáveis, que dão mais cliques, são as que o púbico tem maior interesse. Porém, isso não significa que elas são, de fato, de interesse público. Matérias e reportagens que provocam curiosidade, que atiçam milhares e milhões de pessoas a lerem o texto, na maioria das vezes, são fofocas de famosos, tragédias ou crimes violentos.


Mas, o que é de interesse público são, na verdade, aquelas informações que podem fazer diferença prática na vida de alguém. Uma proposta de lei que o governo quer fazer, que pode diminuir o salário de muitos cidadãos? É interesse público. A morte precoce de um ator famoso, não. Entretanto, é indiscutivelmente o que mais chama a atenção (e falamos um pouco disso em outro "Vamos Polemizar")


Algo que deixa isso claro é a lista de mais procurados do Google no Brasil, em 2019. Do top 10, quatro eram nomes de pessoas que faleceram no ano - Gugu Liberato, Gabriel Diniz, Ricardo Boechat e Caio Junqueira, respectivamente. Das outras pesquisas, quatro eram relacionadas a futebol. Isso leva pensar, então, que o que mais chama atenção das pessoas é o entretenimento e a tragédia, principalmente a morte inesperada de algum famoso. E, infelizmente, tivemos um exemplo perfeito disso no último mês.


Naya Rivera e os casos de Glee


No dia 8 de julho, a atriz Naya Rivera, a famosa Santana da série "Glee", desapareceu no Lago Piru, na Califórnia. Rivera alugou um barco para passear com seu filho e nunca mais retornou, fazendo com que o menino de quatro anos fosse encontrado sozinho.


A partir daí, as manchetes estouraram com informações sobre o caso. Um vídeo de Naya chegando ao local foi vazado pelo TMZ (polêmico veículo jornalístico), as últimas postagens da atriz no Instagram foram detalhadamente analisadas... Pessoas que até mesmo nunca tinham visto Glee estavam atentas para os próximos passos da investigação.


E não vou ser hipócrita, eu definitivamente era uma delas. Nós construímos a mídia, mas de certa forma, somos induzidos também a consumir o que ela nos oferece. É uma relação de troca, que às vezes pode ser bem doentia e prejudicial para tantas pessoas.


Para completar a festa, alguns dos jornais mais importantes do mundo, fizeram um compilado de reportagens, que foi apelidado de "a maldição de Glee". Nele, juntaram diversas notícias íntimas sobre o elenco, que aparentemente corroboraria para a ideia de que a série era amaldiçoada. Casos de violência doméstica, pedofilia, morte por overdose... Tudo escancarado, disfarçado como "informação", que, na prática, em nada importavam para a atual investigação.


O que seria a "maldição de Glee"? | Foto: divulgação

Infelizmente, em 13 de julho, um corpo foi encontrado no lago no qual Naya havia desaparecido e uma conferência com a polícia local, que estava cuidando do caso, foi marcada. Tudo seria transmitido pelas redes sociais e o xerife responderia algumas perguntas de jornalistas. Tudo certo até que o TMZ (aí ele de novo) vazou, antes da coletiva oficial, que o corpo encontrado era, de fato, de Naya Rivera.


Rapidamente todos os veículos correram para dar a notícia que a jovem de 33 anos estava morta. Existem alguns boatos de que os jornais fizeram isso antes mesmo de todos da família de Naya serem informados. A necessidade de liberar o acontecido antes de qualquer um - inclusive das fontes oficiais que investigavam o desaparecimento - passou por cima de qualquer forma de respeito. Respeito com os fãs, com os amigos que procuraram por Naya e, principalmente, com a família que lidava com seu luto tão recente.


Mas, eu não culpo necessariamente os jornalistas - mas, sim, todo um sistema. Afinal, não posso garantir que se dependesse daquele emprego para sobreviver, não obedeceria as vozes dos editores em publicar aquela notícia o mais rápido possível, independente de qualquer variável.


E é o que acontece, mesmo isso indo, também, contra um dos artigos do Código de Ética dos jornalistas brasileiros, que afirma que o profissional não pode divulgar conteúdo "de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes". Um pouco longe da realidade, né?


Não foi só com a Naya...


Alguns dias após a confirmação da morte de Naya, um veículo menor afirmou que a cantora Demi Lovato havia falecido após uma overdose (lembrando que a artista, de fato, já sofreu uma overdose grave em 2018). Apesar de nenhuma informação oficial, a notícia circulou rapidamente, chegando até a família de Lovato. Sua irmã mais nova, Madison de La Garza, chegou a tweetar sobre o ocorrido:


"Por favor, não compartilhe informações falsas / não confirmadas sobre celebridades, ESPECIALMENTE quando se trata de mortes. Isso pode ser um gatilho, decorrente de um Transtorno de Estresse Pós-Traumático, para a família e amigos daquela pessoa, já que não é incomum que a família ouça sobre a tragédia primeiro pelos veículos de notícia. Não confirmado = mentira".


Em uma clara referência ao caso de Naya e à possibilidade de que sua família tenha descoberto sobre a morte pelos jornais, a irmã de Lovato reforça um papel de responsabilidade, porém não dos veículos, mas dos próprios leitores em si. Afinal, como também já falamos no outro "Vamos Polemizar" citado anteriormente, os jornais continuam funcionando nesse mecanismo porque é o que dá mais dinheiro. E só dá dinheiro porque dá cliques, compartilhamentos, visualizações...


Como se não bastasse, ainda em julho, outra tragédia tomou conta dos veículos. Mais uma vez, o TMZ foi a primeira fonte a divulgar que Benjamin Keough, neto de 27 anos de Elvis Presley, havia se suicidado. A notícia, então, circulou pela internet, entrando em editorias de "entretenimento" e "música" dos sites noticiosos.


Benjamin Keough e sua mãe | Foto: acervo pessoal (@lisampresley)

Há um acordo no que se refere à divulgação de suicídios na mídia. De maneira geral, evita-se abordar sobre o ocorrido, por medo de se tornar um gatilho para alguém. E o jornalismo brasileiro é, de certa forma, bom em respeitar isso. Menos quando se trata de suicídio de famosos (ou parentes de famosos).


Benjamin teve sua vida exposta de maneira absurda. Divulgaram como o jovem havia se matado, sobre como sua mãe estava sofrendo, sobre suas internações prévias em reabilitações pelo vício de drogas.


Se o rapaz fosse "uma pessoa qualquer", dificilmente estaríamos sabendo de tudo isso. Porém, há um grande equívoco na mídia de que celebridades - ou seus parentes - são figuras públicas. Ok, elas podem até ser. Mas a partir dessa conclusão, a imprensa cresce, como se as suas vidas pessoais fossem, portanto, interesse público. O que, como já vimos anteriormente, não é verdade.


O que podemos fazer?


Eu mesma disse que acompanhei diariamente o caso do desaparecimento de Naya, portanto não posso ser hipócrita e dizer que a forma de acabarmos com isso é parar absolutamente de consumir notícias do tipo. Não vamos.


O ser humano tem uma atração ao mórbido, atração essa que diversos estudos explicam, e não vou me arriscar aqui em tratar. Porém, é inegável que, apesar da tristeza, do choque e do horror, somos atraídos ao caos, à violência e à morte.


Entretanto, temos que ter cuidado para não permitir que veículos jornalísticos bebam nesse comportamento específico, ganhando dinheiro em cima do sofrimento de milhares de pessoas. Os pais de Naya, por exemplo, tiveram que lidar com a notícia da morte de sua filha escancarada em jornais, quem sabe antes mesmo de poderem compartilhar o fato com todos da família. Isso é justo? De forma alguma.


Sei que temos curiosidade e que desejamos saber o máximo possível sobre algum ocorrido, principalmente quando se trata de algum artista que conhecemos e admiramos. Minha sugestão é apenas que se faça uma reflexão. Quais veículos estão dando a notícia de maneira ética? Com isso, quero dizer, sem sensacionalismo, sem espetacularização, sem teorias da conspiração...


É complicado, já que é inevitável que, a partir do anúncio de um veículo problemático como o TMZ, tantos outros bebam na fonte e divulguem a informação. Porém, mesmo se for impossível resistir a vontade de dar o clique, espere a confirmação oficial antes de divulgar para outros. Espere notícias de sites com compromisso, que respeitem a família e falem de fontes oficiais - órgãos da polícia ou, ainda, os próprios familiares.


É algo que, na prática, parece quase impossível, porém, é um passo importante na construção de um jornalismo mais saudável. Afinal, não adianta cobrar uma postura responsável dos veículos, se insistirmos em dar cliques e visualizações em todas suas coberturas falhas e sensacionalistas, não é?


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A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.