Afinal, qual a participação do homem gay branco no feminismo?

É fato que a opressão vivida por mulheres e pela comunidade LGBTQIA+ tem uma raiz em comum: o machismo. Muitas vezes, um homem gay é visto como menos homem, principalmente se ele agir de forma socialmente considerada feminina. Por isso, por tanto tempo, ambos travaram uma luta semelhante, contra os padrões estipulados pelo patriarcado.


E isso é ótimo. O que penso que às vezes pode acontecer é que as coisas se misturam e alguns homens gays se sentem no direito de participar ativamente do feminismo, em passo de igualdade com as mulheres. É bom salientar aqui que me refiro ao homem cis gay branco padrão, já que homens homossexuais trans, pretos, pardos, indígenas e/ou com deficiência encaram uma realidade diferente.


Vamos a dois exemplos que gosto de mencionar. Uma vez, quando era adolescente, um menino gay, com o qual não tinha muita intimidade, achou que seria apropriado falar que eu estava acima do peso. Ok, dar uma opinião que ninguém pediu sobre o corpo de uma mulher não é exclusividade de um homem gay. Porém, ele continuou, dizendo que tudo bem, porque ele era gay, então estava mais ligado nas questões estéticas e não era um potencial parceiro para mim, por isso estava dando um conselho de "amiga".


Outro caso, em uma festa, um homem apertou minha bunda. Quando virei para reclamar, ouvi dele, enquanto o mesmo ria: "tudo bem, eu sou gay". E esses casos, infelizmente, não são raros. Posso pensar em algumas amigas e conhecidas que passaram pelo mesmo. A conclusão que fica então é que por ser gay, você tem algum direito sobre meu corpo? Pra mim, nesse sentido, há um diálogo muito mais próximo do machismo, já que por ser homem você pensa ter direito sobre meu corpo.

O feminismo e o movimento LGBTQI+ nem sempre dialogam | Foto: Calm Moment

Feminismo X Homens gays


Acredito fielmente que não é possível superar o machismo e o patriarcado sem um diálogo entre opressor e oprimido. Acho que os homens não só podem, como devem, participar dessa jornada. O problema, que acontece muito entre homens brancos gays, é sentir que, por sofrer com alguma forma de machismo, merecem o protagonismo máximo.


Isso acontece com frequência, já que é difícil abrir mão da importância e da voz que "naturalmente" são entregues a você. Digo isso também como mulher cis, branca e em um relacionamento heterossexual. Quase como se por força no hábito, nos sentimos aptos a falar sobre um assunto, mais do que as próprias pessoas que vivem o "assunto" diariamente.


E nessa, sem perceber, estamos fadados a repetir padrões opressores e ocupar um lugar de superioridade social, que tentamos tanto combater.


Misoginia e a comunidade LGBTQI+


Caso isso ainda não esteja claro, pertencer a uma minoria não impede que você oprima outras. Novamente, como mulher cis e branca, tento ao máximo me expressar de forma que não diminua mulheres pretas, pardas, indígenas e trans. Isso é minha obrigação, mas mesmo assim, às vezes falho. Assim, o feminismo branco acaba sendo o fantasma das feministas brancas que flertam com o movimento pelo viés marxista ou interseccional.


Porém, pelo menos ao meu ver, essa ideia só chegou recentemente ao movimento LGBTQI+. Com isso, quero dizer que, por anos, não era falado o óbvio: homens gays brancos podem ser misóginos, racistas e transfóbicos.

Gays e feministas, afinal, são aliados?

Um exemplo ótimo pode ser visto em La Casa de Papel. Palermo, adição da terceira temporada da série, é um homem homossexual. Mas, o que acontece é que seus ciclos familiares e de amizades ficam essencialmente masculinos - uma vez que a mãe do personagem não é mencionada.


A figura da mulher, então, não existe nem como objeto ou como fonte de prazer sexual. Ele não precisa de mulheres para absolutamente nada e, por isso, muitas vezes, as despreza. E isso, definitivamente, não é de hoje.


Nos primórdios


Na Grécia Antiga era extremamente comum que homens explorassem quase livremente seus desejos sexuais, inclusive entre pessoas do mesmo gênero. Heródoto, Platão e Ateneu foram alguns dos nomes que mencionaram a homossexualidade em seus trabalhos.


Mas, o mesmo não foi observado entre as mulheres, que deveriam permanecer constantemente em seu papel de esposa fiel. Trabalhos da poetisa Safos, por exemplo, de mais de 600 a.C, são uns dos poucos relatos que mencionam o amor e sexo entre duas mulheres.


Porém, entre os homens - inclusive os casados - era comum e muito incentivado. Por vezes, a pederastia (termo que inicialmente se referia à relação sexual entre um homem mais velho e um mais novo) era vista também como um ritual de passagem para a vida adulta.


O interessante é que o papel de ativo e passivo em uma relação entre homens era importantíssimo e definia quem era, de fato, "o homem" da relação. Os passivos, portanto, normalmente eram os homens mais femininos, escravos, mais novos, mais pobres... Os que se submetiam a serem penetrados, como as mulheres, eram os perdedores.


Taça ática de figuras vermelhas | Pintor de Euaion, 460–450 a.C

Então, o que acontecia é que os dois ficavam em pé, sem se curvar um para o outro e se penetravam mutualmente ou revesavam, de forma que nenhum dos dois seria "a mulher". E isso, apesar de ser referente à Grécia Antiga, antes do nascimento de Cristo, tem sequelas até hoje.

Muitas vezes, então, quando um homem gay se refere com nojo a uma vulva feminina, quando critica, sem pensar, a aparência de mulheres ou quando se vê detentor do direito de simplesmente passar a mão por um corpo feminino ele está, sim, sendo machista.


Ser homossexual não é um passe livre da misoginia, apesar da homofobia estar, sim, relacionada ao machismo. Por isso, o que muitas vezes vemos são Palermos, que não dialogam ou trocam com muitas mulheres, tem seu ciclo íntimo formado apenas por homens (gays ou héteros) e acabam reproduzindo, em um ciclo nocivo, comportamentos machistas, em que as mulheres continuam sendo vistas como inferiores.


Por outro lado...


Como bem sabemos, nada é 8 ou 80 e é preciso frisar que, muitas vezes, o movimento feminista também falhou com a comunidade LGBTQI+ de diversas maneiras. Seja ao negar que a homofobia está relacionada de alguma forma a padrões de masculinidades inalcançáveis, seja ao excluir mulheres trans, seja ao negar voz a todo e qualquer membro da comunidade.


Por isso, aproveito também para refletir sobre qual é o papel da feminista hétero e branca na comunidade LGBTQI+? E na comunidade preta? Acho que, assim como desejo que homens gays entendam sua posição e não usem sua sexualidade como forma de reafirmar conceitos opressores, preciso exigir o mesmo de mim e de outras feministas brancas.


Portanto, ao fim, a intenção não é atacar ou desmerecer qualquer grupo. Apenas pensar sobre o que significa ser parte de uma minoria social e, ao mesmo tempo, de uma maioria opressora e os cuidados necessários para não repetir padrões nocivos.


_____ A categoria "Vamos Polemizar?" traz assuntos do cotidiano com outras visões e questões. O objetivo é entender melhor alguns sensos comuns dados como verdade por tantas pessoas.