Crítica: A quarta temporada de La Casa de Papel entregou o que prometeu?

Na última sexta-feira, 03/04, a Netflix disponibilizou a mais nova temporada de La Casa de Papel. Com isso, chegamos na quarta parte da série, dessa vez com a continuação de um grande assalto no Banco da Espanha.


A expectativa dos fãs era grande, uma vez que fomos deixados com importantes perguntas na última temporada, com Nairóbi lutando pela vida e Lisboa presa em uma armadilha da polícia. Acredito que os novos episódios respondem bem ao destino dessas duas personagens em questão, ao mesmo tempo que mostram que nossos anti-heróis estão cada vez mais humanos.


Mas não digo isso em tom positivo. Pelo menos, para mim, os problemas pessoais - desde estresse pós-traumático até crise de ciúmes - tomam conta da série, deixando o assalto e o propósito de estarem lá em segundo plano.


A primeira metade é enrolada, com menos ação e bem menos interessante. Porém, como uma boa fã da narrativa, a segunda metade conseguiu me reanimar e até me fazer engolir algumas questões mal elaboradas.


Vamos entender melhor o que eu quero dizer? Ah, aproveito pra reiterar, essa crítica não tem spoilers. Nos últimos dias os fãs sofreram muito com informações vazadas nas redes sociais, então vou poupá-los de mais surpresas estragadas.



A repetição de uma fórmula bem sucedida dá certo?


O que eu senti nessa quarta temporada de La Casa de Pape foi, infelizmente, a repetição de uma fórmula já vista. Não me entenda mal, é uma fórmula que deu muito certo e conquistou milhares de fãs pelo mundo, mas tendo a achar que está cada vez mais saturada.


O assalto ao Banco da Espanha, que começou numa tentativa de proteger Rio e denunciar as torturas do Estado contra ele, acabou numa disputa por ego no grupo dos assaltantes. O Professor da primeira temporada, que tinha um ideal e uma capacidade de apontar as hipocrisias do sistema, acabou preso em sua história de amor, contando cegamente com o apoio da população espanhola ao seu grupo.

Traumas e medos dividem o grupo | Foto: Netflix (Divulgação)

Além disso, uma coisa que sempre me agradou muito na série e não pude ver tão bem nessa última etapa foi a verossimilhança. Apesar de cenários totalmente mirabolantes e fictícios, o roteiro sempre me convenceu que, sim, com bastante inteligência e calma, aquilo poderia acontecer.


Na parte quatro vemos cirurgias complexas, trocas de tiro que nem arranham e, principalmente, muitos desenvolvimentos do plano sendo deixados completamente na mão de hackers orientais. "Como podemos explicar o fato do professor conter essa informação?", "Ah, sei lá, coloca uma equipe de hackers pra dar tudo o que ele precisa" - foi mais ou menos isso que senti.


É claro que, nessa fase da série, o assalto ficou bem mais elaborado, afinal, nossos anti-heróis são bilionários e podem arcar com mão de obra e equipamentos de primeira linha. Mas sinto que isso se perdeu um pouco no roteiro, sendo usado para justificar coisas injustificáveis.



E o matriarcado?


Uma coisa que também sempre gostei na série foi a forma que ela trata questões feministas, sendo o ápice desse contexto a famosa frase de Nairóbi: "Empieza el matriarcado". As meninas, principalmente a dona da frase, sempre tiverem grande destaque no assalto e não possuíam sua imagem vinculada necessariamente a de um homem que não o professor.


Até mesmo com o romance de Rio e Tóquio e a estanha declaração de Nairóbi por Helsinki, acredito que as duas sempre foram mais do que mulheres apaixonadas. Inclusive Mônica - ou Estocolmo - e Rachel - ou Lisboa - conseguiram marcar seu lugar, mesmo tendo sido incluídas no assalto pelas suas relações com homens do grupo.


Na terceira temporada, tivemos muitas questões interessantes sobre isso, muito graças à Palermo, um dos líderes do plano, que é constantemente machista e desmerece as mulheres em sua volta. Além disso, o personagem é gay, fazendo com que todas as pessoas de seu vínculo mais próximo sejam necessariamente homens - o que promove uma reflexão bem interessante.


Mas senti muito falta disso na quarta temporada. Tudo o que temos para enaltecer as questões essencialmente feministas foi uma superficial frase de Nairóbi comparando o medo de um grupo de homens responsáveis por retirar o ouro do cofre com o medo que as mulheres sentem ao andar na rua de noite e um estupro muito mal elaborado, na minha opinião. Queria muito ver mais sobre a reação dos reféns a esse tipo de violência entre eles. Acabou que uma das cenas mais interessantes para a construção das personagens femininas foi um flashback de uma festa no quarto de Tóquio, com todas as mulheres, comemorando uma vitória pessoal de Nairóbi.


O flashback da comemoração das meninas foi um ponto alto | Foto: Divulgação (Netflix)

Por fim, tivemos uma adição muito interessante nessa temporada: Julia (ou Manila), uma mulher transsexual, amiga de infância de Denver e praticamente sobrinha de criação de Moscou. Mas, mesmo assim, senti que a série abordou muito superficialmente sua história, batendo em alguns clichês. Julia só aparece na metade da temporada e não tem o destaque que merece. Outra coisa que acabou por chatear alguns fãs é que a personagem é interpretada por Belén Cuesta, uma atriz cis. Bola fora, né?



Tensão aos 45 do segundo tempo


Apesar das minhas críticas (eu sei, foram muitas), não posso negar meu amor pela série. Desde o começo, foi uma história que me encantou bastante e sempre a considerei muito bem elaborada. Mesmo sentindo que a narrativa se perdeu em alguns pontos, principalmente a partir da terceira temporada, a segunda metade dessa quarta me fez relembrar do porquê eu gosto tanto de La Casa de Papel.


Por volta de quatro episódios, a tensão que não era vista desde o começo da temporada, tomou conta. Graças, principalmente, à inspetora Alícia Sierra. Ela é odiada por muitos, mas é inegável a sua importância para o decorrer da série. Inclusive, ela é responsável pelo maior cliffhanger da temporada. Acredito que Sierra é uma representação super interessante do feminino: uma mulher grávida, cruel e torturadora. Essa complexidade lhe dá características completamente inéditas na série e que acrescentam demais ao enredo.


Alicia Sierra é uma das personagens mais complexas | Foto: Netflix (Divulgação)

O final de La Casa de Papel deixa importantes perguntas e destinos de personagens em aberto. Diferente do que alguns pensavam, dificilmente esse será o fim da história. Apesar de tudo que apontei, espero que a quinta parte consiga trazer de volta algumas características mais antigas da série e deixe um pouco os flashbacks de Berlim e explicações irreais de lado.


A Netflix não confirmou a renovação para a quinta temporada, porém, jornais espanhóis já anunciaram que a empresa de streaming teria essa encomenda negociada com a produção. A expectativa é que o lançamento seja apenas em meados de 2021, principalmente após a pandemia de corona vírus e o atraso de muitas gravações pelo mundo.


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