A busca pelo corpo ideal através das cirurgias plásticas

Se tem uma coisa que conquistou os holofotes nos últimos anos, com certeza foi ela: a cirurgia plástica. Ela chegou de mansinho e de repente, quando nos demos conta, a cada dia que se passava uma personalidade diferente aparecia na mídia com um novo procedimento. O motivo pela procura de uma cirurgia plástica, quando não envolve questões de saúde ou reconstrução facial devido a algum acidente, é sempre o mesmo: a busca pelo corpo ideal. Mas cá entre nós… quem é que disse que existe um corpo ideal? Porque precisamos tanto nos encaixar num padrão?


Falar desse assunto é bem complicado e sim, ele é um tabu. Ele pode até não ser um tabu tão forte e evidente como os outros, mas acredite, ainda sim falar de cirurgia plástica é algo que faz muita gente entortar o nariz. Por isso no #Taburóloga dessa semana resolvemos falar sobre as cirurgias plásticas e essa busca incansável pelo corpo dito por aí como ideal. Afinal… aposto que pelo menos uma vez na vida você já pensou nisso, não é mesmo?


Chega de silêncio, precisamos falar sobre a busca pelo corpo ideal! | Foto: Tatler Magazine

Como tudo isso começou?


Como muitas coisas na nossa sociedade, a cirurgia plástica também começou na Grécia Antiga, ou pelo menos, a palavra “plástica”. Essa palavra é derivada do termo grego plastikos, que significa moldar ou modelar, e foi escolhida pois é uma ciência que tem como objetivo mover ou manipular tecidos do corpo para um fim específico.


Mas os primeiros registros datam do século IV, na região onde hoje é localizada a Índia. Muitos dos procedimentos que já conhecemos hoje em dia, já eram descritos em textos conhecidos como shushruta samhita. Como por exemplo, a técnica de remover parte do tecido da testa e colocá-la na região nasal para restaurar a aparência de pessoas que tinham narizes cortados como punição por crimes. Mas foi na Primeira Guerra Mundial que a cirurgia plástica moderna nasceu como uma resposta aos traumas devastadores em um grande número de feridos.


O dono de ideias inovadoras foi Sir Harold Gilles. Ao ver as mais variadas feridas dos soldados, percebeu que elas precisavam ser fechadas com tecido de outros lugares para restabelecer funcionalidades corporais e dar uma aparência mais “normal”. Foi então que ele começou a fazer enxertos e retalhos (o movimento de tecidos de um local para o outro, mantendo a irrigação de sangue original). Com o passar do tempo, outros cirurgiões perceberam que esses procedimentos poderiam ser feitos em pessoas sem feridas como os soldados, com objetivo de trazer a aparência desejada.


Inicialmente as cirurgias plásticas eram exclusivas a pessoas de grande poder aquisitivo. Mas com o passar do tempo todas as pessoas passaram a realizar estes procedimentos para os mais variados motivos. Em termos gerais, a cirurgia plástica pode ser dividida em reconstrutiva e estética, que podem ser divididas em diversas outras especialidades.


A busca pelo corpo ideal


Não é novidade para ninguém que independentemente do período em que vivemos, sempre haverá um padrão estético e “conceito de beleza” diferente na sociedade. Na Grécia Antiga precisávamos ter corpos que exalasse harmonia e equilíbrio, valorizando medidas proporcionais. Na Idade Média, para sermos consideradas belas, precisávamos seguir a figura da Virgem Maria, com vestimentas longas e esconder o corpo atrás de trajes volumosos. Já no Renascimento bonito eram as mulheres mais cheinhas, de quadris largos e seios generosos.


E nos anos 20? Bom, aqui era exaltado o corpo feminino cilíndrico: cintura, seios e quadris deveriam ter medidas parecidas. No ano fim dos anos 80 e início dos anos 90, o padrão era espelhado em modelos altas, magras e curvas marcantes mas não muito exageradas. Mas qual seria o corpo ideal de hoje? Me arrisco a dizer que seja uma mistura de alguns dos anteriores e talvez exista até mais de um. Hoje, muitas homens idealizam e mulheres sonham com um corpo feminino escultural, com seios grandes, cintura fina, barriga chapada, quadris largos e um bumbum empinado. Mas há também aquelas que sonham com o padrão dos anos 80 e 90, se espelhando em modelos de passarela.


A “beleza ideal” nunca está em nossas mãos. | Ilustração: Dani Soon

Particularmente falando sempre vivi uma batalha comigo mesma na frente do espelho. Sempre fui magra e alta e isso era motivo das mais variadas crises de autoestima. Nasci no final dos anos 90, mais precisamente em 97 e quando passei a entender o que era o “conceito de belo” da sociedade, eu não me encaixava nele. Nos anos 2000 o ideal era ter curvas esbeltas e seios volumosos, e adivinha? Eu não tinha. Como você explica para uma jovem adolescente que ela não se encaixa no padrão? Como você explica para ela que ela não faz parte do considerado bonito pela sociedade? Na verdade não se explica, a gente aprende aos poucos. A gente aprende principalmente através de piadas disfarçadas de brincadeiras entre os colegas de turma e “amigos”.


*alerta gatilho

Há alguns anos atrás, comecei a ganhar a famosa barriguinha. As gorduras na região começaram a aparecer justo no momento em que passei a almejar o outro padrão dos dias de hoje, aquele das mulheres altas e magras. Em um dado dia, antes de ir á praia, coloquei um biquíni e fui dar uma conferida no espelho. Um misto de emoções apareceu e eu sem ao menos me dar conta estava chorando, com crise de ansiedade e no impulso, puxando minha pele com força numa tentativa de remover as gorduras da minha barriga. Minha bunda tinha estrias e celulite, não era lisa como o esperado. Depois de um bom tempo percebi que estava com a barriga toda marcada e vermelha. E depois disso é claro, desisti de ir á praia. Fiquei pensando o que achariam de mim e pior, tive medo de ouvir os comentários que ouvi inúmeras vezes no colégio.


Isso tudo doeu em mim e admito, desde os meus 15 anos eu penso sim em recorrer para as cirurgias plásticas. Já cheguei a buscar na internet procedimentos para remoção de gorduras localizadas, para diminuir o tamanho do nariz, remoção de bochechas e por aí vai. O principal motivo para que eu nunca tenha feito de fato nada foi o dinheiro, mas infelizmente para muitas pessoas esse não é um fator que impeça de buscar um lugar mais acessível.


A grande verdade é que nada disso é saudável! O fato da sociedade sempre nos impor o “ideal”, o “perfeito” e o “belo” faz com que a nossa autoestima fique cada vez mais afetada. A busca pelas cirurgias plásticas surgem nesses momentos, onde a mulher se olha no espelho e não enxerga algo bonito, pois não se encaixa no padrão. Mesmo que ela tenha um corpo lindo, ainda assim não é o ideal e por isso, ela não fica satisfeita. É claro que cada pessoa vai reagir de um jeito a esse padrão, mas acredite, ele mexe com a cabeça de muita gente.


Quem é o grande vilão afinal?


Embora esse texto fale das cirurgias plásticas, não queremos colocá-la como a grande vilã da história, porque de fato ela não é. Elas surgiram para ajudar as pessoas a reconstruírem suas vidas e terem de volta a sua autoestima. E também não estamos dizendo que fazer cirurgias plásticas é errado. Não há nada de errado recorrer a um procedimento estético, mas antes de fazer isso pense: você está fazendo isso por você ou pelo “conceito de belo” imposto pela sociedade?


A cirurgia plástica é uma grande aliada na vida de muitas pessoas e por isso reafirmo que ela não é o problema. Essa pressão do ideal muitas vezes faz com que muita gente haja por impulso, e em alguns casos recorra á locais não especializados. Seja pela falta de dinheiro ou falta de informação, ao longo dos anos são comuns os casos de mulheres que morrem ao procurarem por procedimentos em clínicas que não possuem o preparo necessário. Acredite, a pressão estética pelo que é considerado “ideal’ mata e infelizmente esse número vem crescendo cada vez mais.


Preciso dizer também que o episódio de vivi na frente do espelho não foi o primeiro e sei que infelizmente não será o último. Mas se você assim como eu tem passado por situações como esta, converse com alguém e procure ajuda de um profissional. Colocar tudo isso pra fora ajuda a gente a enxergar que nem todos pensam como acreditamos. É um exercício diário nadar contra essa maré. Mas aos poucos a gente enxerga que ser diferente do padrão é o verdadeiro significado de beleza.


Que tal fazer as pazes com o seu corpo? | Ilustração: Imagine e Desenhe

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Já pensou como a vida seria muito mais simples se a gente falasse mais sobre alguns tabus? Esse é um dos objetivos da categoria “Taburóloga”, que conta com textos quinzenais!