• Victoria Rohan

6 mulheres pretas que lutaram contra a escravidão

Há 132 anos nesse mesmo dia 13 de maio era assinada a Lei Áurea no Brasil. Essa mesma que a gente aprende na escola que a Princesa Isabel assinou e acabou com a escravidão. Essa que nos rendeu o título de último país independente do continente americano a abolir completamente a escravatura. Que a Princesa Isabel não fez isso só porque era boazinha já conseguimos desconstruir. Mas e quem lutou por isso? Quem pagou o preço de lutar contra o sistema pela vida própria e dos demais? Quem são as mulheres pretas que protagonizaram essa luta? É isso que vamos tentar mostrar um pouco mais hoje, trazendo uma Lista com 6 mulheres pretas importantes.

É bom ressaltar que grande parte do que se sabe das histórias de personalidades femininas e pretas na luta contra a escravatura são provenientes da tradição oral passada de geração em geração. Se, hoje, mulheres pretas têm seus feitos diminuídos e apagados, imagine como era no passado. Alguns historiadores chegam a questionar a existência dessas mulheres por não haver registros oficiais, contando apenas com relatos, cantigas e lendas. Seja por desinteresse de historiadores da época ou de hoje, ainda existe uma dificuldade imensa em recuperar suas biografias, já que a tradição oral não é tida como fonte historiográfica. O que cabe a nós é, então, pesquisar e propagar seus nomes, suas histórias e suas lutas.


Dandara de Palmares

Começando por Dandara. Pouco se sabe com certeza sobre sua história. O holofote da história do famoso Quilombo de Palmares foi todo para seu marido, Zumbi, e os poucos registros que temos são mais orais do que escritos. Mas sabe-se que ela contribuiu (e muito) para a organização socioeconômica e política de Palmares. Ela dominava técnicas de capoeira e lutou ao lado de homens e mulheres nos muitos ataques ao quilombo. Dizem que em fevereiro de 1694 ela se jogou de uma pedreira para não se entregar às forças militares que tomaram o quilombo, onde chegaram a viver 30 mil pessoas. É, hoje, uma das maiores heroínas pretas da história brasileira.

Ilustração atribuída à imagem de Dandara. Fonte: Reprodução

Luísa Mahin

Assim como Dandara, Luísa Mahin foi uma importante liderança preta na luta abolicionista. Os maiores registros de sua existência são provenientes de seu filho, o poeta, advogado e abolicionista Luís Gama. Segundo relatos, Luísa sempre negou o batismo e manteve suas tradições africanas acima das doutrinas cristãs. Ela também esteve ativamente envolvida na maior revolta escrava ocorrida no Brasil, a Revolta dos Malês, repassando as informações aos companheiros ativos na luta. Sua casa, inclusive, teria sido o quartel general dos guerreiros em 1835. Não se sabe ao certo o seu destino, só que ela fugiu para o Rio de Janeiro após a Revolta, mas esse é o seu último registro.

Fotografia atribuída à imagem de Luísa Mahin. Fonte: Reprodução

Tereza de Benguela

Conhecida como Rainha Tereza, liderou o Quilombo de Quariterê, no Mato Grosso, após a morte de seu companheiro, José Piolho. Sua liderança se destacou pela criação de uma espécie de Parlamento e de um sistema de defesa com armas adquiridas a partir de trocas ou levadas após conflitos. Foi capturada em um ataque ao quilombo em 1770. Mas dizem alguns que já fora encontrada morta, pois teria preferido morrer a ser capturada viva e correr o risco de ser escravizada.

Pintura popularmente atribuída à imagem de Tereza. Fonte: Reprodução

Chiquinha Gonzaga

A maior personalidade feminina da música popular brasileira também foi ativa na luta pela abolição da escravatura. Chiquinha é responsável pela primeira marchinha de carnaval já escrita na história, a famosa “Ó Abre Alas”. Professora de piano, ela vendia suas partituras de porta em porta para angariar fundos para a Confederação Libertadora. Com o dinheiro arrecadado com a venda de suas músicas conseguiu comprar a alforria de José Flauta, um músico. Protestava contra a monarquia em locais públicos e utilizava o prestígio social que tinha para propagar os ideais republicanos e abolicionistas.


Chiquinha Gonzaga por vezes é embranquecida na memória brasileira. Foto: Reprodução

Anastácia

Anastácia foi uma mulher escravizada que ajudava os demais quando eram castigados, seja lhes amparando com os ferimentos ou facilitando a fuga. Uma vez se recusou a ir para a cama com seu senhor e lutou contra a violência física e sexual que sofreu depois. Por isso foi condenada a viver com a máscara de flandres, uma máscara de aço no rosto que impedia a ingestão de alimentos e bebidas. Era conhecida por todos pelos seus poderes de cura e muitos milagres foram atribuídos a ela - inclusive, alguns membros da igreja católica pedem sua canonização até hoje. Conta-se que o filho de seu senhor foi um dos que recebeu seus cuidados e milagres e que, por isso, recebeu um enterro como escrava liberta. Foi sepultada na Igreja do Rosário, no Rio de Janeiro, cidade para onde foi levada no fim de sua vida.

A imagem de Anastácia é erroneamente associada à ilustração da máscara de flandres feita por Étienne Arago. Fonte: Reprodução

Maria Felipa

Nascida na Ilha de Itaparica, na Bahia, conta-se que Maria Felipa tinha habilidades de capoeirista e uma coragem invejável. Além de lutar pela abolição da escravatura, também teve papel importante na luta pela independência que ocorreu na Ilha de Itaparica. Ela se alistou como voluntária na Campanha de Independência, que vinha organizando a resistência na ilha, e passou a conciliar a luta contra os portugueses com o seu trabalho de marisqueira e pescadora. Conta-se que Maria Felipa liderava um grupo de mulheres que faziam o papel de sentinelas e repassavam as informações aos companheiros de luta em Salvador. Um dia, reagindo a uma invasão portuguesa, seduziram e atacaram os homens com folhas de cansanção (que geram queimaduras graves ao ter contato com a pele), espinhos e tochas.

Ilustração associada à imagem de Maria Felipa. Fonte: Reprodução

Se me permitem me colocar mais no texto agora, queria dizer que como branca estava receosa de escrever essa lista. O medo de ultrapassar o lugar de fala era enorme. Mas foi provavelmente uma das melhores experiências de crescimento que escrever aqui me permitiu. Pesquisar e descobrir a história dessas e tantas outras mulheres pretas que lutaram e deram a própria vida pela libertação do seu povo é, no mínimo, tocante e inspirador. São mulheres fortes e guerreiras (em todos os sentidos da palavra) não somente porque eram de fato, mas porque tiveram de ser. Porque não tiveram uma brecha em vida. Porque nasceram mulheres e pretas. E não tem nada que a sociedade diminua mais que mulheres pretas. Que suas vozes e histórias ecoem hoje e sempre.


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